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GUIA

Dividir um beat entre produtores

14 MIN DE LEITURA

Duas pessoas fazem um beat, ele vende, e ninguém consegue mais dizer quem deve o que a quem. A divisão não é formalidade jurídica que se resolve depois: é decisão de produção, tomada antes da primeira sessão, e cabe em cinco linhas escritas. Veja o que realmente se divide, as divisões que as pessoas de fato usam, e o que acontece no BeatStars e no YouTube no dia em que aparece dinheiro.

SUMÁRIO

O ESSENCIAL

  • Há duas divisões empilhadas, não uma: o beat entre produtores, e a música pronta com o artista. Confundir as duas é o erro caro aqui.
  • Uma divisão se decide antes de produzir. Depois da primeira venda ela deixa de ser decisão e vira negociação.
  • A divisão embutida numa plataforma reparte o dinheiro das vendas daquela plataforma — não os direitos, não o YouTube, não o resto.
  • No YouTube, a receita de um vídeo pertence ao canal que o hospeda: ter coproduzido o beat não dá nenhum direito automático.
  • Só dá para dividir o que é seu: um sample não liberado transforma 50% na metade de nada.

01Para o que a palavra “divisão” aponta de verdade

Uma divisão é a parte de cada um no que uma obra rende. A armadilha é que aqui há duas obras empilhadas, e a mesma palavra serve para as duas. Existe o beat — o instrumental, feito por um ou vários produtores — e existe a música pronta que o artista lança, que contém o seu beat mais letra, voz e interpretação. Dois objetos distintos, duas divisões distintas.

A MÚSICA PRONTA (beat + voz)parte do artistaparte dos produtoresnegociada, nunca automáticaO BEAT — entre produtoresProdutor A — 50 %Produtor B — 50 %Uma porcentagem sozinha não diz nada: é preciso dizer de quê.
A divisão entre produtores acontece dentro da parte dos produtores. É um zoom, não uma segunda pizza — e é exatamente por isso que uma porcentagem citada sem a referência dela não significa nada.

A consequência prática é uma disciplina de vocabulário, e sozinha ela elimina metade dos mal-entendidos: nunca diga "somos 50/50" sem dizer de quê. "50% do beat" e "50% da música" são duas frases, uma corriqueira e a outra quase nunca verdadeira. Quando você escrever o acordo, a primeira linha diz de que a porcentagem é porcentagem.

02Por que a divisão se decide antes da sessão

Antes de produzir, o beat não vale nada. Ninguém sabe se vai ser ouvido, vendido ou esquecido numa pasta. É justamente isso que torna a conversa fácil: vocês estão dividindo um objeto hipotético, e todo mundo aceita de bom grado uma regra simples. Três meses depois o mesmo beat rendeu dinheiro de verdade, e a mesma conversa vira uma negociação em que cada um se lembra da própria contribuição — com sinceridade, e de forma diferente do outro.

Esse viés é universal e não é desonesto: você lembra muito bem o que fez, e bem menos o que a outra pessoa estava fazendo enquanto isso. Some duas estimativas honestas e você passa dos 100% com frequência. A única proteção contra essa diferença é um registro datado de antes, escrito quando nenhum dos dois tinha a ganhar reivindicando mais.

Há também uma razão mais prosaica: a divisão trava o lançamento. Adicionar um colaborador numa plataforma de venda, escrever os créditos no título, preencher os metadados do arquivo — tudo isso acontece na hora de publicar. Uma divisão indefinida é um beat pronto parado num HD esperando resposta.

03As divisões que as pessoas realmente usam

Não existe tabela oficial. O que segue é o mais praticado, e o objetivo de conhecer esses costumes não é aplicá-los cegamente: é ter um ponto de partida, para a conversa não começar com um silêncio constrangedor.

SituaçãoDivisão usualPor que se sustenta
Dois produtores, uma sessão em conjunto50 / 50Com o tempo as contribuições se equilibram — e contar faixas custa mais que os dez pontos em jogo.
Um traz a melodia, o outro produz o resto50 / 50, às vezes 40 / 60A melodia é o ponto de partida, o arranjo é o trabalho. Os dois existem, nenhum basta sozinho.
Melodia comprada de um melody makerO que a licença dele disserA parte já está fixada pelo documento que você aceitou ao baixar o loop. Você leu; não se renegocia depois.
Três produtores num beatTerços iguais, ou 40 / 40 / 20Os terços evitam a aritmética; uma divisão desigual só é problema quando é descoberta depois.
Mixagem ou masterização entregue a alguémUm valor fixo, não uma porcentagemÉ um serviço prestado sobre um beat que já existe. Paga-se uma vez, salvo acordo explícito em contrário.
Nenhuma dessas linhas é regra: são costumes. O único número que conta é o que vocês dois escrevem antes de começar.

Uma coisa nunca funciona: justificar uma porcentagem contando faixas. Quem colocou dezoito camadas de percussão não trabalhou mais que quem achou as quatro notas em torno das quais tudo gira — e o contrário é igualmente falso. Uma sessão se mede em horas e decisões, não em elementos na janela de arranjo.

04Quem publica, quem recebe

Na prática uma pessoa coloca o beat no ar. Um canal do YouTube o carrega, uma loja o vende, uma conta recebe o dinheiro. Essa assimetria é normal e até desejável — dois envios do mesmo beat competiriam entre si — mas coloca um de vocês numa posição de confiança em relação ao outro. Melhor organizar isso.

  1. 1Escolha a conta anfitriã, com um motivoAquela cujo canal e cuja loja carregam o beat. Você escolhe porque o público dela combina com o nicho e o catálogo dela continua coerente — não porque essa pessoa por acaso abriu o projeto naquele dia.
  2. 2Diga para onde vai o dinheiroOu a plataforma paga cada um diretamente, ou a pessoa anfitriã recebe tudo e repassa uma parte. O segundo caso é o mais comum, e é o que precisa ser escrito: qual valor, em que calendário, por qual meio de pagamento.
  3. 3Dê acesso aos números, não só ao dinheiroUm colaborador que não vê nem vendas nem visualizações precisa acreditar na sua palavra. Um print mensal da tabela de vendas basta, e elimina a única pergunta que envenena essas relações com o tempo.
  4. 4Marque uma dataMensal, trimestral ou acima de um valor mínimo — pouco importa, desde que seja uma data e não "quando eu lembrar". Repasses esquecidos raramente são desonestos; simplesmente nunca foram agendados.

Resta o caso que ninguém quer levantar: a pessoa anfitriã larga a música, fecha a conta ou para de responder. O beat some das plataformas junto com ela, e o coprodutor às vezes nem tem mais o arquivo. A proteção é uma frase no acordo: os dois guardam cópia das fontes e do master, e qualquer um pode recolocar o beat no ar se o outro ficar inalcançável além de um prazo combinado.

05A divisão embutida da plataforma, e o que ela não faz

O BeatStars, como vários concorrentes, permite anexar um colaborador a uma faixa com uma porcentagem e pagar a parte dele direto na conta dele. É uma melhoria real: a transferência de dinheiro, que todo mundo achava ser a parte difícil, leva dois cliques. O mal-entendido começa quando essa ferramenta é confundida com o próprio acordo.

O que ela resolve

  • Repassar a parte nas vendas feitas naquela plataforma, sem você ter que pensar nisso.
  • O registro: a porcentagem fica na página do beat, datada, guardada por um terceiro.
  • O crédito público, já que o colaborador aparece na página do produto.

O que ela não resolve

  • Tudo o que entra em outro lugar: YouTube, uma colocação em sincronização, uma venda direta por transferência, um pack vendido no seu próprio site.
  • A propriedade dos arquivos de origem, e o direito de cada um de reaproveitar a própria melodia em outro lugar.
  • O que acontece no dia em que o beat vira exclusiva e sai da loja.
  • O registro nas sociedades de arrecadação, que vive num sistema completamente diferente da sua loja.
  • O caso em que o colaborador nunca terminou de configurar a conta dele: a parte é contada, mas fica travada.

Daí duas conferências a fazer antes da primeira venda, nunca depois: que o seu plano realmente permite divisões automáticas — nem todos permitem — e que o colaborador tem conta funcionando, com meio de pagamento validado. Uma parte que não pode ser paga é uma dívida crescendo em silêncio.

06YouTube: a receita do vídeo não é a receita do beat

Um vídeo monetizado no YouTube paga o canal que o hospeda, e mais ninguém. Ter coproduzido o beat que se ouve nele não dá nenhum direito automático sobre essa receita de anúncio: são duas coisas diferentes, uma ligada a uma obra, a outra a uma conta. Se vocês quiserem dividir esse lado também, é uma linha explícita a mais no acordo — e muitas duplas decidem o contrário, porque o canal é de um deles, que carrega o trabalho dele.

Segundo ponto, e mais perigoso: não coloque no Content ID um type beat vendido sob licenças não exclusivas. O sistema reivindicaria a receita dos vídeos dos seus próprios clientes — justamente aqueles a quem você vendeu o direito de publicar — e cada venda viraria uma disputa. O Content ID faz sentido para uma obra cujos usos você controla inteiramente; um catálogo de type beat é exatamente o oposto.

Por fim, a música pronta que o artista lança nas plataformas de streaming é outro assunto ainda. A sua parte ali passa pela edição e pelas sociedades de arrecadação, é registrada com os nomes civis de todos os autores, e a divisão entre coprodutores reaparece — dentro da parte atribuída ao beat. O guia de licenças e preços cobre esse mecanismo.

07Samples: o terceiro que não está na sala

Só dá para dividir o que é seu. Se o beat se apoia num sample não liberado, a divisão mais bem escrita do mundo está repartindo a propriedade de algo que não é de vocês — e no dia em que a música realmente funcionar, esse assunto chega primeiro, antes de qualquer questão de porcentagem entre vocês.

  • Um kit ou pack de samples licenciado: leia a licença. A maioria permite uso dentro de uma composição mas proíbe revender o som isolado, e alguns restringem vendas exclusivas.
  • Um trecho de disco: precisa de liberação dos detentores de direitos, que se negocia e se paga. Enquanto não for concedida, o beat não é vendável — por melhor que seja.
  • O loop de um melody maker: isso não é sample, é mais uma divisão. A parte dele é fixada pela licença dele e pertence à mesma coluna que a de vocês.

O bom hábito custa trinta segundos: anote de onde veio cada elemento na pasta do projeto, no momento em que você o coloca. Um arquivo de texto ao lado das fontes, com o nome do pack e a data. Essa informação não vale nada enquanto está tudo bem, e vale tudo no dia em que alguém pergunta — seis meses depois, ninguém lembra de onde veio aquele loop de piano.

08O acordo escrito, em cinco linhas

Não é um contrato de dez páginas. Uma mensagem datada, enviada por um canal que guarda histórico, com os dois nomes e os pontos abaixo, vale infinitamente mais que um acordo verbal entre duas pessoas que se dão bem. Disputas quase nunca acontecem entre estranhos: acontecem entre amigos, justamente porque amigos não escrevem nada.

  • O título provisório do beat e a data da sessão.
  • Os nomes civis das duas partes, não só os apelidos, e um jeito duradouro de se contatarem.
  • As porcentagens, somando 100, e a frase que diz de quê: da parte de produtor do beat.
  • Se elas se aplicam ao bruto ou ao líquido — ou seja, antes ou depois da comissão da plataforma e das taxas de pagamento.
  • Quem publica, onde, e sob que nome o beat aparece.
  • Quem recebe, como a outra parte é repassada, e em que calendário.
  • O que cada um pode fazer com o beat em outro lugar: colocar num pack, reaproveitar a melodia, oferecer a um artista diretamente.
  • Quem pode aceitar uma exclusiva, e acima de que preço.
  • De onde vieram os samples, e quem garante que são utilizáveis.
  • O que acontece se um de vocês ficar inalcançável.

09A exclusiva, no dia em que ela aparece

É exatamente aqui que uma divisão verbal quebra. Uma exclusiva tira o beat de venda, paga um valor de uma vez, e compromete os dois produtores no longo prazo. Duas perguntas surgem, e nenhuma se resolve bem sob pressão: quem tem o direito de dizer sim, e acima de que valor.

A regra que evita o acidente cabe em duas frases. Nenhum dos dois vende uma exclusiva sozinho num beat coproduzido. E um preço mínimo se escreve de antemão, para a conversa não recomeçar do zero sob pressão de um comprador apressado — que, por sinal, sabe muito bem que vocês nunca previram isso.

O que uma exclusiva leva junto de verdade — as licenças já vendidas que continuam válidas, a retirada de venda, o que o comprador recebe e o que não recebe — está no guia de licenças e preços. Leia antes de aceitar uma, não depois.

10Créditos, o rastro público da divisão

A divisão é um acordo privado; os créditos são a versão pública dela. Eles não substituem o acordo, mas fazem um trabalho que o acordo não faz: sobrevivem. Uma conversa privada se perde numa troca de celular, um título de vídeo fica no ar por dez anos.

Então o coprodutor aparece em quatro lugares, exatamente com o mesmo nome: no título do vídeo seguindo a convenção "Prod. A x B", na descrição, nos metadados do arquivo de áudio, e na página do produto. A ordem dos nomes se decide uma vez e nunca muda — a mesma disciplina do nome do beat, que precisa ser idêntico do arquivo até a página de pagamento.

Há um interesse próprio esclarecido em ser rigoroso nisso: os créditos são o canal pelo qual o seu coprodutor pega os clientes dele, e vice-versa. Um beat coproduzido creditado direito trabalha para dois catálogos. A mecânica dos modelos — onde colocar essas variáveis para nunca mais redigitar — está no guia de modelos de título, descrição e tags.

11Os erros que acabam em briga

  • Contar faixas para justificar uma porcentagem: o único método que sempre dá razão a quem está falando.
  • "Vamos ver primeiro se funciona" — o único momento em que o acordo é fácil de escrever é o momento em que ele não vale nada.
  • Uma divisão verbal entre amigos próximos, que é exatamente a configuração em que as brigas crescem.
  • Adicionar o colaborador na plataforma e achar que o acordo está feito: essa ferramenta divide o dinheiro de um site, não os direitos de uma obra.
  • Não dizer se as porcentagens se aplicam ao bruto ou ao líquido, e descobrir no primeiro repasse.
  • Vender uma exclusiva sozinho, num beat que você não fez sozinho.
  • Reaproveitar a melodia do seu coprodutor em outro beat sem avisar.
  • Publicar sem crédito e prometer corrigir depois: ninguém edita uma descrição um mês depois.
  • Deixar uma parte acumulando numa conta que o colaborador nunca terminou de configurar.
  • Colocar no Content ID um type beat vendido sob licenças não exclusivas, e reivindicar dinheiro dos seus próprios compradores.

12A checklist antes de lançar um beat coproduzido

  • As porcentagens estão escritas, datadas, e somam 100.
  • Elas dizem de que são porcentagem, e se se aplicam ao bruto ou ao líquido.
  • O coprodutor aparece no título, na descrição, nos metadados e na página do produto, com o mesmo nome em todo lugar.
  • O colaborador está adicionado na plataforma, e a conta dele consegue de fato receber dinheiro.
  • A origem de cada sample está anotada na pasta do projeto.
  • O que acontece com uma exclusiva está decidido antes de alguém oferecer uma.
  • Os dois têm cópia dos arquivos de origem e do master.
  • Há uma data de repasse marcada, não só um princípio.

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